domingo, fevereiro 05, 2006

Pode um assassino escrever um bom poema?, por Otto Maria Carpeaux (1900-1978)

Sempre desconfiei da famosa "cultura enciclopédica" de Aldous Huxley. Admirei-me do fato de que a leitura preferida desse herdeiro da mais requintada aristocracia intelectual inglesa é - conforme a sua própria confissão - a Enciclopédia Britânica; do fato de que esse utilíssimo livro de consulta se lhe tinha transformado em "livro dos livros", espelho dum mundo intelectualmente decifrado; dum mundo do qual desapareceu o frêmito para ceder às generosidades razoáveis do Brave New World bem policiado, que aborrece ao próprio Huxley. Pois o grande intelectual Aldous Huxley está ainda um pouco indeciso. E agora sei por que: ainda não acabou com a leitura da Enciclopédia Britânica. Ao menos, ainda não chegou à letra V. Respondendo a uma enquête - se um nazista pode escrever um bom poema - ele disse alguma coisa sobre a bondade como fundamento da poesia, demonstrando, deste modo, que não tinha lido, no seu livro de preferência, o artigo "Villon".

Villon, com efeito, desmente a Aldous Huxley. Villon, o mendigo, escroque, vagabundo, sacrílego e assassino, desafia a tudo o que é culto e fino; mas não ao humano. Foi simplesmente um homem degradado e desesperado; e um grande poeta.

François Villon é um fenômeno surpreendente. Há mais de quatro séculos, numa época dos maiores artifícios duma civilização requintada - artifícios que já desapareceram inteiramente - um homem, solitário naquela época, sentiu, como nós o encanto e o terror da natureza; exprimiu, como nós, o furor e o desdém irônico da rebelião social; espantou-se, como nós, da morte, teve a audácia daqueles versos, lamentando a morte da sua amante

Mort, j'appelle de ta rigueur,
Qui m'a ma maistresse ravie. . .
Mais que te nuysoit-elle en vie,
Mort?

– a audácia moderníssima da última linha em que a morte aparece isolada, com ponto de interrogação.

O próprio Villon é um ponto de interrogação; esse homem moderno do século XV, esse assassino executado que, do alto da fôrca, nos grita pelos séculos:

Frères humains qui après nous vivez...!
A poesia de Villon venceu o tempo pela simplicidade. É uma poesia de lugares-comuns humanos, demasiadamente humanos – amor, devassidão, degradação, desespero, morte – lugares-comuns expressos numa linguagem muito direta. Fala como os homens falavam sempre e sempre falarão. Villon é o mais nu, o mais humano dos poetas. Sente-se inteiramente submetido à condição humana.

Je ne suis homme sans desfault

– com todos os frêmitos e angústias próprios da nossa espécie, inabolíveis, eternos como a poesia de Villon.

Assim começa o Petit Testament, estranho testamento dum homem que nada tem que legar senão pobreza, sujeira, infâmia, gritos, desesperos, rezas e uns versos. Escollier – no ano da graça de 1456, na época da decomposição do mundo medieval, significa: clérigo-vagabundo, perdido na sarjeta da sociedade. Villon é plebeu; está consciente dessa condição. É porta-voz duma revolta social de mendigos e vagabundos, furiosos contra os ricos invejados. Quer viver como estes, e confessa com o mais ingênuo dos materialismos

Il n'est tresor que de vivre à son aise

Mas não lhe permitem. Tratam-no como a um cão:

Au retour de dure prison,
Ou j'ay laissé presque la vie...

Ele se vinga: furta, rouba, assassina. Eles se vingam: Villon acabará na forca, esqueleto pendurado.

Puis ça, puis la, comme le vent varie.

Não se acha inocente; escreve Justice com maiúscula, lamenta a mocidade perdida:

Hé Dieu! se j'eusse estudié.
Au temps de ma jeunesse folle...


Era aluno preguiçoso e amásio assíduo

Tout aux tavernes et aux filles.

Chega a celebrar grosseiramente
ce bourdel ou tenons nostre estat;

Nos esconderijos mais escuros da velha Paris, e em todas as estradas reais da França está em sua casa; o vagabundo Villon conhece os tempos mais duros da fome hibernal
En ce temps que j'ay dit devant,
Sur le Noël, morte saison,
Que les loups ne vivent de vent.
Então, não resta outra solução senão furtar, roubar e, às vezes, quebrar os ossos dum camponês ou rasgar a barriga dum cônego. Villon é, em todos os sentidos, um desgraçado e um degradado; escreve o seu testamento

L'an trentiesme de mon âge,
Que toutes mes hontes j'eu beues.

Com a mão, manchada de sangue, escreve as rezas mais ternas à Virgem:
Dame du ciel,
regente terrienne

e grita alto:

Je cryes à toutes gens merciz.

No coração, escuro de sujeira terrestre, começa a brilhar a estrela da manhã. E o último desses famosos envois, sempre dirigidos a qualquer prince de companhia amorosa, apela para o Prince Jésus, e pede em favor de todos os seus companheiros de miséria e de crime, e de nós todos.

Mais priez Dieu que tous nous vueille absoudre.

Um crítico chamou à poesia de Villon le meilleur ordre de paroles qu'existe en langue française. Essa melhor ordem de palavras, porém, está encerrada na incoerência desregrada do Petit Testament e do Grand Testament, coros de estrofes áureas e sujas, sem "contextura" visível. É a poesia mais confusa do mundo; e, com efeito, a ordem superior das palavras de Villon é fruto da vida mais desordenada. Certa hipocrisia intelectualista explicaria, talvez, a contradição, simplificando: "Boêmia de poeta"! Cumpre protestar contra a mistura de desprezo burguês e de admiração invejosa que há naquela expressão, somente a falsa boêmia, secretamente assegurada pela mesada do pai, assemelha-se àquela brincadeira. A verdadeira boêmia é uma coisa muito dolorosa: é a própria forma de viver dos inadaptados, dos "tipos acabados do sujeito que não arranja nada nesta vida". Esta verdadeira boêmia era a forma de viver de Villon: a desordem era a sua Ordem. A forma de viver e a forma da poesia em Villon estão bem congruentes. A desordem completa, a incoerência fantástica dos seus longos poemas está ritmicamente bem ordenada por cesuras: aqueles envois e refrãos que ressoam pelos séculos e parecem a única coisa de Villon que realmente sobreviveu na memória da posteridade. O corpo de Villon enforcado foi esquartejado. A sua poesia anda - castigo mais duro dos seus pecados - rasgada em mil pedaços pelas antologias. Para compreendê-la bem, cumpre restituir-lhe a contextura; conforme se exprimem os críticos ingleses: "contextualizá-la".

Para êsse fim, nada tenho que acrescentar à magistral análise que Leo Spitzer, o criador da investigação estilística moderna, deu, em Romanische Stil- und Literaturstudien (Marburg 1931), da Ballade des Dames du Temps Jadis. A pergunta: – Dictes-moy où, n'en quel pays se foram as famosas belas damas de todos os tempos, e a melancólica resposta interrogativa: Mais où sont les neiges d'antan? andam incompreendidas por todas as antologias. Spitzer, porém, observou na desordem desaparente dos dois Testaments uma ordem secreta, correspondente a certas regras da lógica escolástica e da composição musical da época. As baladas interpoladas nos Testaments assemelham-se a conclusões ou pontos de órgão, que resolvem as dificuldades e dissolvem as dissonâncias. A balada das damas de outrora aparece no Grand Testament, após as estrofes 40 e 41, descrição de todos os terrores da morte - face hipocrática, suor frio, expectorações nojentas - descrição de naturalismo o mais cruel, como nos sermões de penitência dos frades medievais. Com efeito, a balada, transformação duma canção dos estudantes medievais - Ubi sunt qui ante nos in mundo fuere - é uma disputa sobre o assunto "vida e morte", imitação poética das disputas escolásticas. Há nisso intenção do poeta. Villon, o homem do século XV, emprega surpreendentemente, e de propósito, formas arcaicas da linguagem - a palavra antan, em vez de annés passée, já era arcaica na sua época. Villon imita, no sentido musical da imitação fugada também, como nos cânones muito engenhosos dos músicos contemporâneos. Os nomes das damas famosas aparecem sucessivamente conforme certas regras da disputa universitária, porém regidos, como por um leitmotiv, pelos nomes do famoso par Paris et Helaine que já apareceram na estrofe 40 do Grand Testament, e que fornecem todo o aparelho das vogais e rimas da Ballade, para, enfim, dissolver-se na música do refrão mais où sont les neiges d'antan? Assim os terrores da morte resolvem-se na coincidência secreta do destino humano com o destino da natureza: idéia inteiramente alheia ao espírito medieval, e que anuncia o sentimento de vida duma nova época.

Até aqui acompanhei o estudo de Leo Spitzer, que encontra nos refrãos de Villon uma secreta sabedoria subentendida: "A criação poética consiste em deixar ouvir atrás de cada palavra a palavra essencial".

Com muita razão, os refrãos de Villon estão vivos. Encerram em forma de música verbal, a secreta sabedoria do poeta. Na contextura dessa poesia, o refrão é como o bater de um relógio anunciando a hora duma época.

O grande historiador holandês Jan Huizinga descreveu êsse século XV na França e Flandres, para o qual encontrou a expressão quase mágica: "Outono da Idade Média". É a época dos cronistas pitorescos à maneira de Froissart, dos pintores diabólicos à maneira de Jerônimo Bosch, das brutalidades de Carlos o Temerário e das perfídias de Luís XI; a época do último gótico Flamboyant, e do mesmo style flamboyant nas festas luxuosas e nas execuções de sadismo requintado, no alegorismo engenhoso dos torneios e dos poemas, no naturalismo crudelíssimo dos pintores e na música abstratamente simbólica dos organistas.

Nessa época dos maiores artifícios, a voz de Villon é a voz surpreendente da maior simplicidade e naturalidade. Fala um novo homem. Nada nele é artificial. Nem sequer a mistura de devassidão e brutalidade com a devoção mais humilde, como nas madonas ternas dum Memling, o que não é indício duma boêmia desregrada, mas sintomas das tensões íntimas duma época de transição. A sociedade daquele século é cheia de artifícios duma civilização requintada e moribunda – não falta, como resumo, a imensa enciclopédia de Vincent de Beauvais, e um Aldous Huxley ali estaria em casa – mas François Villon, o plebeu, à margem dessa sociedade, exprime o terror de morte da época de maneira inteiramente nova: para Villon, a morte já não é o flagelo dos pecados nem a porta ao paraíso, a morte é - Mort? um ponto de interrogação, uma luz inquietante, iluminando a condição humana.

Villon é filho duma época de transição. En ce temps que j'ay dit devant, uma terrível crise social desaraigou os povos. Todos os valores tradicionais foram derrubados. Il n' est trésor que de vivre à son aise. As estradas reais encheram-se de vagabundos. As grandes praças diante das catedrais góticas formigaram de massas anônimas gritando fúrias revolucionárias e angústias místicas. A desordem invade as almas. Não há poesia. O século XV é literariamente o mais pobre dos séculos europeus. Mas daquelas massas emerge um homem solitário, a quem "um Deus deu a dizer o que aqueles sofrem", Um homem que transformou o grito inarticulado em ordem musical de palavras, em poesia: Villon.

A desordem da época e da vida de Villon é a própria ordem da sua poesia. A forma de viver e a forma da poesia estão inteiramente congruentes. Conforme o conceito de I. A. Richards, que citei outro dia, a sinceridade do poeta consiste numa tendency towards increased order, numa tendência para uma ordem crescente. Seguindo esta tendência para uma ordem crescente, Villon chega a transformar as fórmulas escolásticas da poesia contemporânea em novo alfabeto dos sentimentos eternamente humanos. Consegue isto vivendo intensamente a sua vida, em coerência inteira consigo mesmo, em plena sinceridade. Deste modo, o assassino pode escrever um bom poema, mesmo um poema imortal.

Villon é o representante mais completo da sua época. E como - conforme um dito de Ranke - "todas as épocas são iguais perante o trono de Deus", Villon é um representante completo da humanidade. Nihil humani a me alienum puto repetem os humanistas da escola, e Villon viveu assim. Há nele uma totalidade do humano, não excluindo nada - Je ne suis homme sans desfault. Confessa a rebelião, a devassidão, a blasfêmia, o crime, a vergonha. E não se gaba disso boêmiamente: está consciente da fragilidade da nossa natureza humana. Chega a suplicar: Je crye à toutes gens merciz; chega a rezar: Mais priez Dieu que tous nous veuille absoudre. Na música dos seus refrãos consoam as fugas de órgão de ontem e as marselhesas de amanhã; acordes do que é eternamente humano, humano e eterno.

Eis a poesia do assassino Villon. Ele tinha a consciência de pertencer a uma época de morte, e a consciência clara de que a sua voz não emudeceria pelos séculos: condensando a sua consciência poética no verso estranhamente apolinairesco:

Alié s'en est, et je demeure.

O seu primitivo e sempre novo alfabeto poético é mais duradouro do que o alfabeto das enciclopédias mais civilizadas; Aldous Huxley, o intelectual indeciso, representante dum moribundo outono da civilização, não vai talvez, chegar nunca à letra Z da sua enciclopédia, enquanto na voz de Villon já se misturam as fugas de órgão e as marselhesas da sua época e da nossa também, e de todas que vêm depois de nós outros: Frères humains qui apres nous vivez...

Villon não foi um grande intelectual, nem um nobre. Foi um assassino; e um poeta. Conheceu profundamente – de profundis – a nossa condição humana de pecadores e miseráveis, num mundo nunca inteiramente decifrado e muito mal policiado. Sabia por que gritou: Je crye à toutes gens merciz o pobre vagabundo que tinha tanto a perdoar aos seus juízes e carrascos, já estava pronto a perdoar a todos, lembrando-me as palavras de Manzoni: Dite loro che perdonino sempre, sempre! tutto! tutto! No seu coração, escuro de sujeira terrestre, já começou a brilhar a estrela da manhã. Dos lábios do pobre Lázaro condenado rebentou, como uma hemoptise, um coro de estrofes áureas, pedindo perdão para todos, para o homem rico Aldous Huxley também, e para todos nós, irmãos humanos:

Mais priez Dieu que tous nous veuille absoudre.



FONTE

CARPEAUX, Otto M, Presenças. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1958. p. 157-165

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