quinta-feira, fevereiro 02, 2006

Camus


O crítico e escritor australiano Clive James fez uma descrição da figura de Albert Camus que assino embaixo. Diz que Camus "tinha glamour e sabia disso. Usava um casaco de Humphrey Bogart e sabia que era um casaco de Humphrey Bogart. Tinha um Gaulois colado a seu lábio inferior. Morreu romanticamente num acidente de automóvel". James observa que, quando lia Camus, planejava morrer romanticamente num acidente de carro.

Embora eu nunca tenha considerado seriamente morrer de forma romântica num acidente de carro, aquela foto publicada na quarta capa das antigas edições portuguesas de Camus sempre me chamou a atenção, era a encarnação do "outsider", era "cool".

Mas para James, o que impressionava mesmo não eram tanto o casaco e o cigarro pendurado, mas o fato de, ao contrário de Jean Paul Sartre, Camus ter o "toque de heroísmo" de quem resistiu à ocupação nazista na França e também discordou do stalinismo apoiado pelo líder da tribo existencialista.

Dizem as más línguas que Camus descobriu a verdade sobre a realidade da finada União Soviética por meios não-convencionais, pois era amante da mulher de Arthur Koestler, que conhecia bem o tema. A mulher do autor de "O Zero e o Infinito" teria contado tudo a Camus.

Parece que o horroroso Sartre tinha inveja de Camus não só por sua aparência, que garantia sucesso com as mulheres, como por seu sucesso literário - "A Peste", lançado em 1947, rapidamente vendeu 350 mil cópias. Eram amigos, mas a amizade começou a ser abalada por pequenas críticas "ideológicas" à produção literária de Camus. Enquanto Sartre pendia cada vez mais para a esquerda, para o stalinismo, Camus se tornava um independente.
Camus posicionou-se contrário a qualquer tipo de autoritarismo, e via Stálin como encarnação da maldade, no mesmo nível de Hitler. Isso era inaceitável para o vesgo stalinista. Paul Johnson nota que a independência política de Camus o colocava numa posição semelhante à de George Orwell na Inglaterra - ambos consideravam as pessoas mais importantes do que as idéias, o oposto portanto de Jean Paul Sartre.

REFERÊNCIAS
JOHNSON, Paul. Intellectuals. Nova York: Harper & Row, 1990.

Nenhum comentário: