Meu amigo socialista: - Era mesmo você? Era o mesmo amigo de quarenta anos? Você, de certo, já ouviu falar na minha vizinha. É gorda e patusca como uma viúva machadiana. Mas tem o que falta às viúvas machadianas: - gazes enrolando as varizes das canelas. E diz a minha vizinha: - "Quarenta anos não são quarenta dias".
Digo mais: - por mais estranho que pareça, quarenta anos não são nem quarenta anos. No tempo interior, os nossos quarenta anos são, digamos, 40 mil anos. Eu tenho medo pueril de parecer idiota (e talvez o seja realmente), mas sinto que a amizade é anterior a si mesma, começa muito antes, vem de encarnações passadas e continuará por encarnações futuras. Durante 40 mil anos, eu dormia admirando você, acordava admirando você.
Uma admiração é feita de muitas admirações (se estou escrevendo o óbvio, paciência). Vou fazer aqui, de passagem, uma lista de admirações que você me inspirou. Admiração pela serenidade; admiração pelo equilíbrio; admiração pela delicadeza. Longe de ser trivial, a delicadeza é uma virtude de santo. Admiração pelo espírito. Admiração pela juventude. Paro por aqui. Mas poderia, se o quisesse, falar de outras admirações, e outras, e outras.
Não sei se todos repararam, mas você não envelhece. Você nasceu para ser jovem. Não falemos do falso tempo do relógio e das folhinhas. Mas uns poucos homens nascem velhos, são septuagenários natos, como o conselheiro Rui Barbosa. Ao passo que você, inversamente, nasceu para ser, digamos, um heleno de vinte anos. É como o vejo ou, melhor dizendo, é como eu o via até sábado.
Acreditei sempre que nenhuma catástrofe poderia alterar a sua harmoniosa e translúcida estrutura interior. Certo dia, depois de uma das nossas conversas, ocorreu-me a seguinte fantasia - se caísse uma bomba atômica na sua cabeça. Como reagiria a serenidade que é sua força? Eu estava certo de que você não faria ao fato a concessão e espanto, nem e acrescentaria um ponto de exclamação. Diria apenas, com fino tédio: - “Morri”. Em seguida, insistiria nos mesmos hábitos, nos mesmos horários, nos mesmos ternos, na mesmíssima caixa postal.
Eu e todos os seus amigos levávamos na mais alta a sua delicadeza. Num mundo de patadas, você não as dava. E nem vociferava. O brasileiro é, como você sabe, um sujeito que discute em arrancos triunfais de cachorro atropelado. Ao passo que você, meu amigo socialista, sempre sentiu, pensou, opinou em surdina. Se você tivesse um ódio, havia de odiar também em surdina. Eu só admitia em você ódios delicadíssimos e suaves, tão suaves que você próprio não os perceberia.
Até que chegou a bela noite de sábado. Estou, em casa, batendo as minhas "Confissões". E, de repente, toca o telefone. Era um outro amigo que me dizia: - "Vem correndo. Estão aqui em casa fulano, fulano e fulano. Chispa". Disse não sei quem que a nossa vida é um deserto sem solidão. Ora, só o amigo nos salva no deserto. Respondi: - "Já estou saindo". Um dos presentes era você. No táxi, imaginei que, por umas duas ou três horas, nós fundaríamos a nossa inviolável, a nossa inescrutável solidão.
No Brasil, a amizade berra, sim, a amizade uiva. E fui recebido com uma apoteose de berros e de uivos. E, então, tudo foi acontecendo. Convém não esquecer um dado seriíssimo: o único que não berrou, o único que não uivou, foi você. Aliás, não se conhece, em toda a sua biografia, uma gargalhada. Você chega ao sorriso, um sorriso bem ensaiado, de uma compassiva ironia.
E, então, um dos amigos presentes, socialista como você, começou a me provocar. Provocação em cima de provocação. A minha vontade era perguntar: - "Mas vocês me chamaram para isso?". Tenho um cardiologista que é um santo, o dr. Stans Murad. Sempre que eu o visito, ele me diz: - "O importante é não se aborrecer". Sempre que nos despedimos, insiste o dr. Stans Murad: - "Não se aborreça". E, de fato, tenho feito um arquejante esforço para não me aborrecer. Mas como, se viver, o simples fato de viver, já é um massacre? De vez em quando, cada um de nós sente uma absurda vergonha de estar vivo. E reparem como o suicida começa a ter, e cada vez mais, uma razão insuportável.
Meu Deus, eu não devia ter dito nada. Eis a única providência prática que me cabia: - sair, já que aquilo era o deserto sem solidão. Mas acabei perdendo a paciência. Disse várias coisas, inclusive esta: - "Você não fale, não deve falar, não tem o direito de falar". E expliquei por que ele devia fazer eterno silêncio: - "Você" - disse-lhe eu - "é a favor do assassinato de um inocente. Você não foi a favor do assassinato do embaixador alemão?".
Quem respondeu não foi ele, foi você. Por isso, comecei esta "Confissão" perguntando: - "Você era você?". Sabe o que você fez, e o que disse, e o que gesticulou? De repente, o homem que, nos 40 mil anos de nossa convivência, jamais dera uma gargalhada, esse homem começou a vociferar. Sua famosa serenidade explodiu. Esse homem punha, não o seu jovem rosto, mas uma máscara de ódio. Estava sentado e pôs-se de pé. Era você e não era você. Parecia um impostor que, usando seus ternos, sapatos, obturações, fingia-se de você. A minha vontade foi protestar contra a fraude e reagir assim: - "O ódio é seu. Mas devolva os ternos, os sapatos, as obturações".
Para a desventura nossa, você era você. E então pergunto: - que fim levou o outro? Sim, aquele que eu admirava, que eu tinha como uma dessas figuras exemplares e que não passava de um sorriso sutil e era incapaz de uma gargalhada forte, tremenda, vital? Todavia, como esta carta é um documento público, o leitor há de querer saber o que você disse, finalmente.
Disse. Ou por outra: - berrou: - "Se é preciso matar o inocente, se convém matar o inocente, deve-se matar o inocente!". Bem sei que o ser humano está cada vez menos humano. Não estarei insinuando nenhuma novidade se disser que a matéria absoluta passa por um processo de desumanização irresistível. Mas quem quer que tenha um mínimo de humanidade, sabe que não se mata um inocente. Se a salvação da humanidade depender do sangue de um inocente, a humanidade deve se imolada e nunca o inocente.
Nas suas palavras, meu caro socialista totalitário, julgo perceber um som conhecido. Não era assim que falava Raskolnikov, de Crime e castigo? Mas pensando melhor veremos que Raskolnikov era menos sanguinário. Ele não via, na velha usurária, a inocência. Ao passo que, para todos nós, inclusive para você, o embaixador era o inocente. Para os terroristas, era inocente. E você declara ao justificar os bandidos: - “Se os terroristas não matassem, se desmoralizariam”. Aí esta: - porque os assassinos se frustrariam como assassinos, tinham o direito de trucidar a inocência.
Meu amigo socialista:- quando eu tinha quinze anos, meu irmão Roberto Rodrigues foi assassinado. A partir do momento em que ele morreu, aprendi uma verdade que está cravada na minha carne e na minha alma, para sempre: - "Não se mata". Mesmo o culpado, não se mata. Um homem não mata outro homem. Quando enforcaram os nazistas, após o julgamento de Nuremberg, houve no Brasil um protesto. A grande figura de Gilberto Freyre levantou-se contra a execução. Os nazistas não deviam ter sido enforcados. Sempre fora contra a pena de morte e mais uma vez era contra a pena de morte. Fez um discurso, na Câmara dos Deputados, com uma coragem maravilhosamente lúcida. Sim, Gilberto Freyre foi um momento da consciência humana.
Meu amigo, eu disse que você, para mim, era um luminoso ser, nascido para ser jovem, eternamente. Mas quando falou, sábado, vi a sua velhice fulminante. O que restou foi a múmia de heleno de vinte anos. Múmia, com todos os achaques das múmias.
[3/6/1970]
FONTE
RODRIGUES, Nelson. O Reacionário: Memórias e Confissões. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p. 164-167



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