quarta-feira, outubro 01, 2008

Outro texto sobre Edward Said

por Jeff Jacoby*

[A presente tradução teria sido publicada na Folha de São Paulo]

Edward Said, o mais renomado intelectual palestino, demonstrou não passar de uma grande fraude. A experiência, aparentemente, não lhe ensinou nada. Durante décadas Said passou por ser um exilado - um Árabe nascido e criado em Jerusalém, expulso por Israel na guerra Árabe-Israelense de 1948. Esta foi a história que ele sempre contou, permeando sua narrativa com detalhes cheios de emoção.

“Sinto-me cada vez mais deprimido” relembrava em Março de 1998 “quando eu lembro minha linda velha casa, cercada de pinheiros e laranjais em al-Talbiyeh, nas redondezas de Jerusalém”. Num documentário da BBC ele relembrou seus anos no Colégio St George, uma escola preparatória inglesa em Jerusalém. Ele e um rapaz de nome David Ezra costumavam sentar no fundo da sala de aula. Ele disse, em outra entrevista em 1997, que ele poderia identificar as peças de sua antiga casa familiar “onde, ainda garoto, ele lia Sherlock Holmes e Tarzan e onde ele e sua e sua mãe liam Shakespeare”. Tudo isto foi perdido quando sua família fugiu de Talbiyeh, em dezembro de 1947, expulsos “por carros de som israelenses [que] avisavam que os Árabes deveriam abandonar a vizinhança”.

Mas como Justus Reid Weiner mostrou em Commentary, um influente jornal, a trágica história de Said era, em grande parte, fabricada. Os Saids tinham morado no Egito, e não na Palestina. Edward Said cresceu e estudou num bairro elegante do Cairo, onde seu pai tinha um próspero negócio. Freqüentemente a família visitava parentes em Jerusalém. Edward nasceu numa destas visitas em 1935. Mas em sua certidão de nascimento a residência dos Saids foi registrada como sendo no Cairo. O espaço reservado para um endereço na Palestina ficou em branco.

Weiner investigou a expulsão dos Árabes de Talbiyeh em 1947 e nada foi encontrado. Ele checou também os registros de estudantes no Colégio St George e não havia nenhuma menção a Edward Said. Ele entrevistou David Ezra, o estudante que teria sentado nas últimas fileiras com Said.... Bem, por causa de suas dificuldade de ler Ezra sempre sentou nas primeiras filas.
Said ocupava uma posição superior no mundo das letras: mantinha uma cadeira de Inglês e Literatura na Universidade de Colúmbia, era um professor muito procurado e foi, por diversas vezes, Presidente da Associação de Línguas Modernas, membro do Conselho de Relações Exteriores, e fellow da American Academy of Arts and Science.

Mas ele sempre foi reconhecido, principalmente, como um campeão da causa palestina. Por muitos anos foi membro do Conselho Nacional Palestino, o “Parlamento no Exílio” da OLP e conselheiro privado de Yasser Arafat. Ele atacava brutalmente Israel e defendia a causa palestina em todos os fóruns imagináveis, desde editoriais de jornal até transmissões para testemunhar perante o Congresso. E suas palavras tinham grande força moral - não era ele uma vítima da usurpação Sionista? Não tinha ele sofrido expulsão e exílio?

Quando o mundo percebeu que não, sua autoridade moral foi reduzida a nada. Era como se "soubéssemos que Elie Wiesel tivesse passado a guerra em Genebra e não em Auschwitz", como disse um observador. Poderíamos pensar que este constrangimento teria convencido Said a parar de mentir a seu próprio respeito. Mas suas mentiras continuaram.

Durante uma visita ao Líbano em julho, Said foi visto jogando pedras sobre a fronteira de Israel. Atirar pedras em Israel era um passatempo comum para turistas Árabes no sul do Líbano desde a retirada israelense em maio. O apedrejamento despertou pouco interesse internacional apesar de vários israelenses terem sido feridos, alguns séria e definitivamente. Mas quando a Agência France Press divulgou uma foto do mundialmente famoso intelectual palestino se juntando à violência, conseguiu manchete em todo o mundo. Said foi criticado, até mesmo em lugares onde era geralmente elogiado. O Beirut Daily Star demonstrou consternação de que "alguém que trabalhara tanto para acabar com os estereótipos contra os Árabes, se mostrasse violento...se permitisse levar pela turba a jogar pedras sobre a fronteira internacional". No próprio campus de Said o Columbia Daily Spectator atacou sua "ação violenta e hipócrita" como "estranha a esta ou a qualquer outra instituição de ensino".

Sua resposta foi desprezar o incidente como simplesmente "um gesto simbólico de contentamento" - e, mais uma vez, mentir. Suas pedras, disse ele tinham sido "jogadas num espaço vazio". Algumas testemunhas tinham outra versão. O London Telegraph publicou que Said "estava a menos de dez metros de soldados Israelenses numa torre de observação azul e branca de dois andares, onde estavam hasteadas bandeiras Israelenses. Ao saber que havia fotógrafos franceses por ali o Professor mostrou-se surpreso: "Eu não tinha idéia de que havia pessoal da mídia por ali, ou que eu fosse o alvo de sua atenção". Mas a AFP tem outra versão - como souberam dois professores de Colúmbia, Awi Federgruen e Robert Pollack. Eles escreveram suas conclusões para o Espectator de que "as fotos de Said jogando as pedras foi entregue a esta agência exatamente pelo próprio Professor Said".

Para alguém que havia escrito que os intelectuais precisam "dizer a verdade, da maneira mais direta, honesta e simples possível", Said parece ter passado maus momentos mentindo sobre os fatos a seu respeito. Talvez por que ele soubesse que não haveria nenhum preço a apagar, profissionalmente, por suas enganações.

Quando Weiner expôs as falsidades de Said, a resposta de Colúmbia foi -não fazer absolutamente nada! "Surpreendentemente o Professor Said não foi nem apoiado nem criticado pelo Presidente [da Universidade]", escreveu Weiner num ensaio em Academic Questions, o Jornal da National Associations of Scholars. "Nem o Diretor, nem a junta de administradores, nem o Senado da Universidade sequer mencionaram a dissimulação de Said".

Para quem conheça a história de Colúmbia esta falta de interesse pela mentira de um de seus professores é impressionante, pois Said não foi o primeiro do Departamento de Inglês a ser descoberto numa série de mentiras públicas. Na década de 50, um instrutor chamado Charles Van Doren ganhou aplausos nacionais por sua brilhante apresentação no show "Twenty-One" da NBC. Estes aplausos se tornaram desprezo quando o show foi denunciado como manipulação, e Colúmbia esclareceu imediatamente que não poderia manter em seus quadros tal mentiroso. "É uma questão de moral, honestidade e integridade do ensino", disse o Diretor John G Palfrey, e acrescentou "se estes princípios merecem ser conservados, Van Doren não pode permanecer". (Como Weiner acentuou: "enquanto Van Doren pode ter sido iludido pelos produtores do programa a participar de uma competição desonesta, Said foi o único responsável por suas mentiras"). Por que os dois pesos duas medidas?

Em relação a meros mortais Colúmbia ainda insiste em honestidade. Há alguns meses atrás um estudante de 19 anos que mentiu que havia sofrido um acidente de carro para ter mais tempo para uma prova, foi suspenso por dois anos. Já Said, cuja lenda de exílio e perda de propriedade foi muito mais elaborada e iludiu muito mais gente, não sofreu nenhuma censura disciplinar.

Um Professor que dissemina mentiras é como um médico que receita veneno ou um juiz que aceita dinheiro de uma das partes. Todos são ameaças à sociedade, todos traem seus cargos. Médicos que matam podem ter seu registro caçado; juízes corruptos podem ser impedidos de julgar. Mas um professor que mente - ao menos em Colúmbia - permanece livre para continuar enganando. É de admirar que Edward Said continue dizendo mentiras?

* Jeff Jacoby é colunista do jornal The Boston Globe desde 1994, e antes fora editorialista-chefe do Boston Herald. Graduou-se na George Washington University e na Boston University Law School. Foi advogado e trabalhou em campanhas eleitorais para o Senado americano. Além de seu trabalho como jornalista, é comentarista político da Boston’s National Public Radio (WBUR-FM) e por anos manteve um programa de televisão. O presente artigo escrito quando Said ainda era vivo, foi traduzido por Heitor de Paola e está publicado, no original em http://www.bigeye.com/jj092800.htm

Nenhum comentário: