sábado, abril 15, 2006

Lições de Abismo, por Gustavo Corção (1896-1978)

Seria mais acertado dizer que andei, que corri, que estive todo esse tempo errante, a procurar aquela que me viesse chamar pelo nome de infância, que me viesse dizer quem sou eu. Andei, andei, desorientado Parsifal, "pelos caminhos dos erros e das dores". Em cogitações, em sonhos, em leituras longas, passei dias e noites a percorrer os caminhos percorridos, a interrogar poetas e filósofos – saltando as idades, galgando as distâncias – se algum deles acaso encontrara, caída no chão, a chave de minha vida. Ó sombra de minha mãe, quem me dirá de novo, ao ouvido, o nome que me deste? "Como pude esquecê-lo, como pude ser infiel a tudo? Nada mais vive em mim senão loucura e sombras." (p.20)


Ninguém sabe, senão por experiência própria, e uma só vez, como é que pesam no corpo cinqüenta anos mal vividos. (p. 22)


(...) para matar o tempo, o grande inimigo dos subalternos. (p. 27)


Doravante eu era adulto, irremediavelmente adulto, sem nenhum nexo a não ser os livros, as estampas, as estátuas, sem nenhum nexo com o mundo em que eu não era. Aferrei-me à convicção de que havia no universo uma absoluta necessidade de que eu fosse. Assim, calava-se a minha angústia, e eu me instalava, deus solitário e melancólico, no centro de um universo feito para mim. (p. 88)


O coletivismo de que morre o mundo, e de que vivem os novos aventureiros, é a teoria do ajuntamento sem unidade; é a tentativa de encontrar significado na multidão, já que não se consegue descobrir o significado de cada um: é a conspiração dos que se ignoram; a união dos que se isolam; a sociabilidade firmada nos mal-entendidos; o lugar geométrico dos equívocos. (p. 117-118)


Eu quereria demonstrar, se tivesse tempo, que a verdadeira sociabilidade só é possível quando tiver raízes que desçam aos abismos da subjetividade. Pois somente dessas profundezas pode jorrar a verdadeira generosidade. Em outras palavras, o que eu quereria demonstrar é que as verdadeiras aberturas do homem estão no seu interior, no jardim secreto de seu coração (p. 119)


FONTE

CORÇÃO, Gustavo. Lições de Abismo. Rio de Janeiro: Editora Agir, 1954

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